Na madrugada da véspera de Natal, uma avalanche de terra soterrou a casa de dois andares. No local só sobrou a laje da garagem. Neusa e Vitorino foram resgatados gravemente feridos. “Estávamos dormindo e acordamos embaixo dos entulhos”, relatam. Ambos apresentam problemas na coluna. Ele não consegue mais trabalhar nem se aposentar, e ela tem dificuldades para falar e andar. Em meio a lágrimas, ela acrescenta: “Perdemos tudo, tudo”.
Foto: Edson Chagas
Neusa Aparecida Borges no local onde era sua casa, bairro Barro Preto, que foi levada por avalanche de terra provocada pelas fortes chuvas de dezembro de 2013 - Especial Chuvas
O casal recebe aluguel social e tenta se manter com a renda de um pequeno salão, no centro de Itaguaçu. Conta com a ajuda do filho, Danilo Borges Paixão, 27. Um jovem que não consegue expressar a perda da esposa grávida e do filho. “Já era calado, agora quase não fala”, conta Neusa, cujas lágrimas aumentam quando lembra do bebê que estava por nascer. “Era uma menininha”.
Sem recursosDanilo e Claudiana moravam na zona rural, mas estavam na casa de Neusa a pedido médico. A jovem estava no oitavo mês de gravidez. No dia da tragédia, Danilo tinha ido conferir a situação da propriedade e assim escapou do soterramento. Tudo o que sobrou foi uma pequena bolsa com as roupinhas do bebê, encontrada pela Defesa Civil.
Na mesma rua onde a família morou por mais de 20 anos, outras três casas foram atingidas, sem vítimas. A região é considerada agora de risco iminente. Novos deslizamentos podem ocorrer se voltar a chover, mas não há perspectivas de que obras possam ser feitas na região por falta de recursos.
A prefeitura local já adquiriu um terreno para construir as casas para as famílias que foram desabrigadas, mas os recursos não chegaram. Algo que desespera Neusa e Vitorino. “Perdemos tudo. Não tenho como comprar uma casa”, diz Neusa.
Comércio
Foto: Edson Chagas
Romulo João Gatti, proprietário do supermercado Gurizão que ficou alagado com inundação do Rio Doce em dezembro de 2013 - Especial Chuvas
Nos dois municípios grandes perdas também foram registradas no comércio. Em Itaguaçu, o Supermercado Pagel ganhou destaque quando a população disputou os alimentos que estavam sendo descartados. “Aquilo foi por desespero. Nada poderia ser aproveitado”, relata o proprietário Celso Pagel.
Ele se emociona quando anda pelo galpão de estoque. “Em 30 anos nunca ficou vazio como agora”, diz, relatando com exatidão o tempo de alagamento: “Foram cem horas”. Pagel estima seu prejuízo em mais de R$ 1,3 milhão.
AbrigoOutro que se emociona quando lembra dos dias de enchente é o padre Paulo Bosi Dal’Bó. Ele abrigou mais de 1.200 pessoas em sua igreja, incluindo os primeiro bombeiros que chegaram à cidade, cujo barco virou e tudo perderam.
Relata que os primeiros gritos de socorro foram ouvidos na manhã do dia 21 de dezembro de 2013. Antes que a manhã terminasse a igreja já estava lotada. Naquela noite dormiram nos bancos e no chão, sem colchões ou lençóis. “Mas todos foram acolhidos”, destaca o padre, cuja igreja se transformou no centro de controle de operações para os militares estaduais, do Exército, da Força Nacional e de voluntários.
Para o padre, a tragédia deixou várias lições. Uma delas é de que a solidariedade ajudou a superar a tragédia. “As doações não deixaram que nada faltasse e o trabalho voluntário salvou vidas”. Também ensinou, destaca, que é preciso repensar a gestão das cidades. “Muitas construções, até de prédios públicos, estão sendo feitas às margens dos rios”, pondera, preocupado com o risco de novas enchentes.
Colatina: em meio a entulhos, moradores tentam recomeçar suas vidas